Estamos todos à beira de um colapso nervoso, nunca satisfeitos com o que já temos ou somos, mas cientes de que a liberdade é o nosso bem mais precioso. É se sentir livre, o que nos torna vivos, pensantes. Podemos agir impulsivamente diante de algumas situações, mas na maioria das vezes, pensamos à respeito de nossos atos.

E é com essa ideia que terminei o livro Perto do Coração Selvagem, escrito por Clarice Lispector. Confesso que demorei um pouco mais de tempo para finalizar essa leitura, de uma narrativa densa, com variações e muito sentimento. Cada capítulo me trouxe um pensamento diferente, uma nova sensação que ainda não sentira.

Sobre a autora:

Seu nome de batismo, Chaya Pinkhasovna Lispector, nascida em 10 de dezembro de 1920. Jornalista e escritora ucraniana, naturalizada no Brasil – declarava ser pernambucana, escreveu romances, contos e ensaios, e é considerada uma das mais importantes escritoras brasileiras do século XX e maior escritora judia desde Kafka ( A Metamorfose).

Seu romance de estréia, aos 24 anos, foi Perto do Coração Selvagem e é sobre ele que falaremos.

Sinopse: A vida de Joana é contada desde a infância até a idade adulta através de uma fusão temporal entre o presente e o passado. A infância junto ao pai, a mudança para a casa da tia, a ida para o internato, a descoberta da puberdade, o professor ensinando-lhe a viver, o casamento com Otávio. Todos estes fatos passam pela narrativa, mas o que fica em primeiro plano é a geografia interior de Joana. Ela parece estar sempre em busca de uma revelação. Inquieta, analisa instante por instante, entrega-se àquilo que não compreende, sem receio de romper com tudo o que aprendeu e inaugurar-se numa nova vida. Ela se faz muitas perguntas, mas nunca encontra a resposta.

“Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.” página 70.

De primeiro momento, Joana é uma menina imaginativa, que vive no mundo da lua, sem medo da vida, do que estar por vir. O relacionamento com seu pai era deveras invejável, pois era pai e mãe, criava a filha da melhor maneira que podia e no final da vida ainda sentia o peso da ausência de sua mãe. De mudança para casa da tia, conheceu o mar e seu poder. Sentiu a brisa úmida e salgada, trazida pelas ondas que quebravam nas pedras.

“Definir a eternidade como uma quantidade maior que o tempo e maior mesmo do que o tempo que a mente humana pode suportar em ideia também não permitiria, ainda assim, alcançar sua duração. Sua qualidade era exatamente não ter quantidade, não ser mensurável e divisível porque tudo o que se podia medir e dividir tinha um princípio e um fim.” página 44.

Conheceu Otávio, que a ouvia falar incansavelmente sobre tudo o que vinha à mente. Ás vezes sem sentido. Mas Joana tirava proveito de todos os segundos, ela queria viver, ser ela mesma, não precisar de ninguém, ser só. Porém, na adolescência começou a sentir uma manifestação em seu corpo indo contra tudo o que já pensara. Tudo por seu professor. Mas foi momentâneo, e descobriu que queria estar ao lado de Otávio e casar-se com ele.

“Porque os últimos cubos de gelo haviam-se derretido e agora ela era tristemente uma mulher feliz.” página 112.

Apesar de seu noivado com lídia, Otávio tinha uns devaneios de personalidade, como se algo estivesse faltando, um lado obscuro, que ao lado de Joana se acalmava. Então, seus votos foram feitos. Mas a vida é bastante complicada. Enquanto ela queria sentir novamente, ser livre; ele queria apenas estar a seu lado e escrever seu livro.

Nós escolhemos com quem nos abrir intimamente, e nem sempre isso acontece. Alguns preferem a  solidão , mesmo passando a vida toda ao lado de quem se gosta. E por isso, muitas vezes os casamento falham. Não foi diferente dessa realidade. A infidelidade alcançou o casal, de um lado a amante dele – Lídia – esperando um filho, do outro um homem misterioso numa casa misteriosa que observa Joana enquanto ela dorme.

O fim, sozinha, sem o marido, sem o amante, numa casa velha, com a herança do pai. Por uns instantes, sonhando acordada, vê-se desesperada com medo da morte, pede a Deus para que esse momento nunca chegue. E em questão de segundos o renega, não tendo mais medo de ser só, porque é de sua natureza ser assim. E se fosse diferente, não seria Joana.

Nota: Lançado pela editora Rocco, apesar de ter 202 páginas, o sentimentalismo envolvendo a obra vai mais além que palavras no papel. O senso imoral da protagonista nos leva a crer que a vida está passando e não estamos aproveitando o seu máximo. Curtindo cada momento, cada segundo de vislumbre diante de nossos olhos, seja por pessoas ou por coisas, antes que o fim chegue e sermos invadidos por uma onda de arrependimento.