A onda hallyu, do k-pop, já é uma indústria cultural muito potente e influenciadora. Nos últimos meses, o k-pop vem conquistando mais e mais fãs, quebrando recordes no mundo da música, ficando para a história, vários grupos são conhecidos mundialmente, a cada dia somos impressionados com alguma inovação dentro do gênero. Para os fãs, melodia contagiante, roupas incríveis, cores, dança, coreografias super sincronizadas. Para os k-idols, sucesso, pessoas que admiram seu talento, acham você o mais lindo ou a mais linda de todas, reconhecimento, prêmios nacionais e internacionais, fama, muito dinheiro mas também uma realização de sonho.

   Este é o k-pop que todo mundo vê e que fazem muitos gostarem do gênero. Mas, assim como tudo na vida, tudo tem seu lado ruim, e no k-pop não é diferente, o seu lado sombrio é cheio de cobrança, pressão, baixa autoestima, bullying e muito mais, o que faz alguns idols entrarem em depressão e outras doenças psicológicas e acabarem em suicídio, em casos mais graves. Fazer parte de um grupo de k-pop tem um lado bom, como todos conhecem, mas tem seu preço que é pago pelas principais estrelas e até agora não se faz muito para mudar essa situação.

Kim Jonghyun, 27 anos, grupo SHINEE, suicídio em 2017

    Segundo a World Population Review, a Coreia do Sul é o quarto país com a taxa de suicídio maior do mundo, com uma taxa total de 26, 9 casos de mortes por suicídio entre 100.000 pessoas. Os homens são os que mais tiram a própria vida que as mulheres, 38,4 entre eles e 15,4 entre elas. Olhando por esse lado, o suicídio está presente em toda a sociedade coreana, não só entre os idols, mas em toda a população, jovens adultos e idosos. Segundo o Statistics Korean, a maioria dos suicídios entre idosos e adultos são motivados pela pobreza, por não ser capaz de sustentar a família. Já entre os jovens coreanos, estudantes e universitários, devido a motivos existe uma serie de motivos.

  Os jovens de 13 a 24 anos enfrentam pressão na escola para se manter sempre estudando e assim poder entrar numa boa faculdade e futuramente sustentar seus pais que nunca vão receber aposentadoria do governo. Essa pressão entre os que estão terminando a escola é muito maior, eles são obrigados a passar muitas horas na escola estudando, às vezes, até durante a noite. Entre os mais adultos, a dificuldade de conseguir seu primeiro emprego ou estágio e somado a tudo isso, muitos sofrem bullying e ciberbullying, que resulta em depressão, eles param de se sentir capaz e de ter autoconfiança, o que pode resultar em suicídio.

Nos bastidores do Kpop, os problemas não mudam muito, eles são muito cobrados, precisam ser perfeitos, sofrem pressão psicológica e bullying dos superiores ou até mesmo de colegas integrantes do grupo. Quando alguém, mulher ou homem, entre 14 a 17 anos consegue se tornar trainee, ele começa a trilhar um caminho bem difícil. Eles precisam dar o seu melhor o tempo todo, se cometer um pequeno erro corre o risco de ser expulso da empresa, podendo dar adeus a sua sonhada carreira de idol, são horas de ensaio para chegarem ao sincronismo perfeito, muita pressão por todos os lados. Além disso, eles não moram com suas famílias, assim que são aceitos como trainee, passam a morar com outros jovens que tem o mesmo sonho, tendo com pouco contato com a família, eles precisam passar por tudo isso sozinhos, já é nesse momento que a depressão pode começar.

  Quando conseguem debutar em um grupo, a pressão não para, ela chega em outro nível, eles precisam ser perfeitos, carismáticos, às vezes, sao obrigar a se comportar de um jeito que não são tudo para agradar os fãs e conseguir sucesso. As horas de ensaio continuam, as pressões também, muitos precisam se apresentar várias vezes por semana em festivais, na TV, em premiações, assim, o excesso de trabalho se torna até visível em alguns. Com a constante cobrança sobre eles, acabam tendo o pensamento que sempre podem dançar ou cantar melhor, que não foram bons o suficientes nas apresentações, podendo nunca ficarem satisfeitos consigo mesmo, apesar de serem sempre perfeitos e talentosos aos olhos dos fãs.

Sem contar nas proibições que algumas empresas tem para os idols, por exemplo, uma delas bem conhecidas é a de que eles não podem namorar, precisando fazer isso escondido, e se por acaso vier a público pode ser expulso da empresa. Em um programa de variedade coreano, Knowing Brothes, o ex-integrante do grupo Roo`ra, Lee Sang-Min, da década de 90, afirmou que eles eram proibidos de terem celular. Além das proibições, há os xingamentos e ameaças de pessoas que se dizem fã de um idol, apenas o fato de seu nome ser envolvido em uma Fake News ou até mesmo uma notícia que para nós brasileiros seria normal ouvir sobre um cantor, como uma noitada em um bar, já vira um escândalo com retratação da empresa.

O que dizem os especialistas

Todos esses fatores, afeta o psicológico deles e se não tiverem cabeça para aguentar tudo isso, eles ficam cada vez mais sensível a doenças psicológicas como depressão. Segundo a Dra. Almira Falcão, CRP 02/8431, psicóloga da Clínica Hospitalar do PROCAPE (Pronto Socorro Cardiológico de Pernambuco), quando um jovem entre 15 e 24 anos é exposto e submetido a rotinas de trabalho excessivas, rodeado de cobrança e pressão, às vezes sofrendo bullying, ou seja, ao que um idol pode passar na sua carreira, “o jovem já está passando por questões seríssimas estressoras de ambiente, então são vários gatilhos que pode prejudicar a saúde mental dele, se não souber lidar com isso, pode leva-lo a uma baixa autoestima, a um sentimento de impotência e daí pode surgir tristezas em vários graus e desencadear uma depressão, desenvolver a síndrome de Burnout, que é uma exaustão no trabalho e a ansiedade generalizada, que chamam de TAG, Transtorno de Ansiedade Generalizada. Por mais que a pessoa tenha uma estrutura de personalidade muito boa existe uma possibilidade de desenvolver algo da saúde mental”, disse Dra. Almira Falcão.

O jornalista coreano Lee Hark-Joon é o diretor do documentário Nine Muses of Star Empire (2012), onde é visto a rotina diária de um girl group por um ano, mostrando seus altos e baixos, e co-autor do livro K-pop Idols: Popular Culture and the Emergence of the Korean Music Indrustry. Em uma entrevista para a Folha de São Paulo, Lee Hark-Joon afirmou que os idols “desde muito jovens, vivem uma vida mecânica, submetidos a um regime de treinamento espartano” e ainda que “a profissão deles é especialmente vulnerável à pressão psicológica- eles têm seu comportamento esquadrinhado na mídia social o tempo todo, e notícias falsas sobre sua vida social são difundidas instantaneamente”.

Sulli, 25 anos, grupo F(x), suicídio em outubro de 2019

   Para o psicólogo Kwon Young-cha, criador do Instituto de prevenção ao suicídio das celebridades, em uma entrevista para o jornal The Korean Times, os idols quando não estão mais no topo do sucesso podem se sentir sozinhos e acabam se perdendo, “Eles são solitários, não sabem como aproveitar o tempo livre e não têm a menor ideia sobre seus próximos objetivos na vida. Durante esse período, eles são particularmente vulneráveis ​​a doenças mentais, como depressão, sentindo-se mais impotentes e frustrados com comentários maliciosos. Isso pode tê-los tornado incapazes de suportar suas vidas”. Além disso, quando estão se preparando para debutar até o momento de chegarem ao topo, ainda muito jovens são acompanhados por um gerente que faz tudo em nome do Idol, inclusive para evitar polemicas sobre ele. “Portanto, seus gerentes tomam extremo cuidado com eles, fazendo praticamente tudo em seu nome. Isso faz com que as estrelas não consigam se sustentar, mesmo depois de se tornarem adultas. Eles são performers impecáveis ​​no palco, mas são pessoas mentalmente imaturas fora do palco, que acham difícil controlar emoções, superar dificuldades e lidar com conflitos”(trecho do texto da reportagem da referida entrevista).

Ações do governo coreano para prevenir suicídio e depressão

De acordo com o Statistcs Korea, em 2018, o governo sul-coreano iniciou, pela primeira vez na história, um plano de prevenção ao suicídio, “Plano de Ação Nacional para a Prevenção do Suicídio” com o objetivo de reduzir até 2022, os casos de suicídio para 17 mortos por 100 mil pessoas. O plano foi organizado pelo ministro da saúde e bem – estar, Park Neung-hoo, e instituiu uma séries de ações em todo o pais para alcançar os objetivos do plano.

    Entre essas ações estão o treinamento de 1 milhão de guardiões, responsáveis e capazes de reconhecer rapidamente sinais de risco de suicídio de pessoas ao seu redor, como família, amigos e vizinhos e em seguida encaminha-los facilmente aos especialistas. De acordo com o relatório anual de andamento do plano, até 2019 foram treinados 1,6 milhão de pessoas guardiãs. Outra ação é a criação de grupos de autoajuda e autopsia psicológica de sobreviventes dos suicídios, no relatório anual do plano foi registrado que houve 13 mil suicídios até o ano de 2019 e dentre eles mil sobreviventes, sendo todos os suicídios e tentativas registradas no centro de bem-estar de saúde mental do plano nacional.

   A Coreia do Sul ainda está longe de ter pouquíssimos casos de suicídios mas está no caminho certo. Esperamos que daqui a algum tempo os fãs de todo o mundo possa para de ouvir tantas notícias de integrantes de grupos mortos por suicido. Idols são pessoas normais, seres humanos que merecem ser tratados com dignidade, que podem acertar e errar como qualquer outra pessoa, merecem respeito e principalmente precisam de muito apoio.

Idols que já afirmaram ter tido depressão

  A depressão já não é mais um tabu entre os artistas, é algo que alguns integrantes de grupos falam abertamente sobre o assunto e sobre os seus sentimentos. Mas, não é algo tão fácil de falar, Park Kyung do Block B falou em uma entrevista para a BBC que “celebridades tem dificuldade em lidar com suas emoções, eles não tem muitas oportunidades de expressar como eles realmente se sentem, devido as exigências de trabalho que fazem eles esconderem suas emoções”. Isso mostra que a quantidade de idols que já tiveram ou tem sentimentos depressivos pode ser muito maior do que o que é conhecido pelo público geral.

Em 2014, em uma entrevista de rádio, Suga do BTS afirmou que lutava contra uma depressão, sentimentos que ele expressou na música The Last –August D (seu codinome). O caso mais recente é o da integrante Kwon Mina do grupo AOA. Em junho de 2020, a integrante anunciou a sua saída do AOA, o motivo foi que ela sofria bullying de uma das colegas de grupo, que mais tarde revelou ser a líder, Shin Jimin. Segundo Mina foram 10 anos sendo desprezada, xingada e machucada física e psicologicamente por Jimin. Mina teve sintomas de depressão e ansiedade e tentou até o suicídio. Mas, vem recebendo tratamento psicológico e a líder Jimin, foi expulsa da empresa e do grupo logo depois que os vários incidentes relatados por Mina, em sua conta do Instagram, foram confirmados.

Uma pesquisa de Saúde Mental feita na Coreia do Sul, em 2016, teve como resultado que, um em cada quatro cidadãos coreanos experimenta problemas de saúde mental pelo menos uma vez na vida, e apenas 22,2% deles usa serviços de saúde mental. De acordo com Dra. Almira Falcão, psicóloga da Clínica Hospitalar do PROCAPE (Pronto Socorro Cardiológico de Pernambuco), quando ninguém dá atenção a uma pessoa com depressão, há uma possibilidade maior de um suicídio acontecer, “Quando essa pessoa não busca um tratamento e não toma medicamento, não faz terapia, e, às vezes, não acredita que tem depressão, existe essa possibilidade de desenvolver e chegar até a um suicídio”.

Mas, alguns não conseguem lidar com a dor, a preocupação, pressão eterna e o vazio dentro de si, não recebem ajuda e nem conseguem expressar o que sentem e então comentem suicídio, por isso é tão importante não ignorar nenhum sinal nas pessoas ao seu redor e dar atenção a quem está precisando, considerar tudo o que lhe falarem, considerar a dor do outro sem julgamento e com paciência, além de tentar levá-los para uma ajuda médica e terapêutica. O Recife tem um centro de ajuda especializado que atende 24 h por dia, o CVV (Centro de Valorização da Vida), que realiza apoio emocional e prevenção ao suicídio.