Por João Ferreira

Esse filme acabou sendo uma experiência pessoal para mim, pois me lembrei do meu avô, falecido recentemente. E isso ocorreu não apenas graças à atuação magistral de Anthony Hopkins – premiada com o Oscar – mas também a uma série de escolhas que a direção do “estreante” Florian Zeller tomou para deixar a narrativa mais envolvente.

A trama acompanha um idoso que se vê em uma situação confusa e – consequentemente – desesperadora: está perdendo sua memória e enxergando uma realidade distorcida, na qual sua filha adulta, com quem ele vive, tenta lidar com isso. Basicamente, esse senhor, que coincidentemente se chama Anthony, busca encontrar o seu lugar nessa situação.  Como se pode perceber, essa é uma sinopse bem básica, diferente do filme em si, que com certeza vai mexer com sua cabeça.

Independente da maneira como você chegar a este filme, vai se deparar com uma realidade propositalmente manipulada, – literalmente – já que o propósito da trama é contar a história no ponto de vista do Anthony, e assim como ele, nos sentimos desnorteados na maior parte do tempo. Quando as coisas parecem estar caminhando de uma forma convencional, aí a montagem da trama – ou o quebra-cabeça na cabeça do protagonista – toma uma nova forma.

Hopkins interpreta um personagem sarcástico que já dispensou diversos profissionais que foram contratados para tomar conta dele, mas quando o filme começa, ele te fornece esses detalhes, e você é atirado na história com o bonde andando. Assim, fica estabelecido que esse roteiro não tem uma “regra” definida, apenas segue o pensamento do Anthony. Em determinadas cenas, essa produção me lembrou muito O Show de Truman, de 1998, por conta de “encenações” que estão presentes na mente do Anthony… ou seria de fato algo encenado de forma que o personagem está sendo vítima de uma armação?! É esse o questionamento que vai te deixar imerso na trama.

A trilha sonora de Ludovico Einaudi (o mesmo carinha da soundtrack de Nomadland) cheia de violinos distorcidos também causa uma sensação estranha, de forma que tudo aquilo – embora incomum e um tanto peculiar – pareça corriqueiro. É como se ficássemos confusos no primeiro momento, mas logo em seguida tudo parece se esclarecer. Essa é uma combinação que a gente vê muito nos trabalhos de Yorgos Lanthimos, em especial O sacrifício do cervo sagrado, que combina bem uma sonoplastia propositalmente perturbadora e hipnotizante com uma trama cheia de enigmas – ainda que Meu pai tenha um propósito mais “íntimo”. 

Lá em cima, eu chamei Florian Zeller de estreante, porém isso apenas no cinema, já que ele é um dramaturgo muito bem sucedido, tendo inclusive criado a peça teatral na qual o The Father é baseado. Aliás, esse propósito artístico do filme é tão minucioso que a gente percebe nos cenários uma brincadeira constante com a cor azul, e também no figurino com as roupas da Anne, a filha do Anthony, interpretada brilhantemente por Olivia Colman. Um personagem que me deu ranço foi o Paul, interpretado por Rufus Sewell, um ator que já tem experiência com arquétipos comuns a um antagonista – lembrei inclusive da performance dele em O ilusionista, de 2006.

Considerações finais

No fim das contas, Meu pai acaba sendo um retrato comovente – e extremamente realista, da terceira idade, e a forma como isso afeta o idoso e também quem está ao seu redor. Independente da leitura que você fizer de alguns elementos, certamente o que vai prender sua atenção no filme é o seu encanto e a forma minuciosa de falar do Anthony.