por @joegrafia

Para fechar a discussão sobre a Consciência Negra, gostaria de trazer à tona um importante, e ainda assim, esquecido personagem negro das histórias em quadrinhos mundiais. Não! Não me refiro aos poderosos heróis da Marvel Comics, nem da DC Comics, como o Pantera Negra, Luke Cage ou o Lanterna Verde de John Stewart; vamos precisar voltar bem mais no tempo, no começo dos heróis dos quadrinhos, sob a escrita de Lee Falk. Vamos falar de Mandrake, o Mágico, e seu fiel ajudante, Lothar.

Em 1934 surge uma das mais marcantes e memoráveis revistas em quadrinhos da era de ouro, chamada Mandrake, o Mágico que trazia em seu visual referências ao cinema da época, de Adolphe Menjou e Rodolfo Valentino, e diversas similaridades à Salvador Dali, em seus traços peculiares; frisando a atenção em seu fiel escudeiro, Lothar, Rostand Paraíso (2008) apresenta a sua construção de personagem, que surge imerso nos estereótipos do negro forte e corpazudo, muitas vezes visto no cinema, que carregava  as malas e bugigangas do heróis de forma desajeitada e desastrada. Trajava pele de leopardo e um calção minúsculo, com um chapeuzinho de macaco de circo. Referia-se ao herói Mandrake como patrãozinho, chefe ou até mesmo senhor.

O autor do livro ‘A Magia dos Quadrinhos’ (PARAÍSO, 2008) chama a atenção para a final construção do personagem, antes da revista parar de ser publicada em 1970; de um “brucutu” de quase dois metros e meio de altura, ele se transforma num homem negro simplesmente alto, trajando roupas civilizadas e tendo falas mais inteligentes, que processavam o inglês sem fugas bruscas a fala padrão, e por fim, sendo muito mais efetivo quanto a sua participação nas tiras, ainda que fosse o ajudante do herói. Essas transformações só são perceptíveis depois do surgimento do movimento negro. Até então, era meramente um alívio cômico ser negro e desengonçado.

Não se engane, a participação do negro nas histórias em quadrinhos antes dos movimentos de 1970 sempre era representada com muita carga preconceituosa, e mesmo anos e anos depois, assim continuou sendo… Mas de forma menos escancarada do que antes foi, com o Mandrake e Lothar. Tais personagens eram construídos no intuito de invisibilizar, diminuir e, sobretudo, inferiorizar. Aliás, sua participação era tão escassa que quando apresentado, era apenas um personagem terciário, um brutamontes que faria apenas o trabalho braçal – seja carregando peso ou lutando corpo a corpo. E aqui vale lembrar do poder da comunicação na cristalização de ideias e conceitos sobre algo, unicamente por constantemente representar daquela forma com frequência, ainda que não seja uma representação fiel à verdade. Não precisa ser. A imagem já está cristalizada.

                                           Se partimos   do   entendimento   de   que   os   meios   de   comunicação   não   apenas repassam   as   representações   sociais  sedimentadas  no  imaginário  social,  mas  também se   instituem   como   agentes   que   operam,   constroem   e   reconstroem  no  interior  da  sua  lógica  de  produção  os  sistemas  de  representação,  levamos  em  conta  que  eles  ocupam  posição  central  na  cristalização  de  imagens  e  sentidos. (CARNEIRO, 2003)

         Essa representação buscava o efeito da descentralização do negro, e uma apresentação de persona e caractere que repetisse as representações sociais embutidas no imaginário social, e acabavam construindo uma imagem do negro inferior ou incapaz não só para o negro, como para todo o público leitor que acompanhasse aquele conteúdo.

    Faz 87 anos que Mandrake, o Mágico foi lançado, ao lado de seu escudeiro, amigo e servo Lothar. Faz 55 anos que o Movimento dos Panteras Negras deu seus primeiros passos, rumo à luta pela negritude, e os direitos e representações da população negra. E, apesar de muitas coisas terem mudado, melhorado (e outras piorado, mas nem cabem neste texto), ainda é possível ver as feridas abertas de um mundo antes dos movimentos sociais em TUDO que consumimos, sobretudo quando o assunto é negritude. Lothar é a prova viva (digo, escrita), de como é importante discutir negritude em todas as esferas. Lothar é essencial para que percebamos que o racismo está entranhado em todas as formas de comunicação – inclusive nos Gibis – e que em todas as suas formas deve ser combatido.