Estreou em 18 de março de 2020 nos EUA, Little Fires Everywhere (Pequenos Incêndios por toda a parte), minissérie produzida e lançada pela plataforma de streaming Hulu. No Brasil, sua chegada veio exclusivamente pela Amazon Prime Video e estreou a poucas semanas.

A série é baseada no livro best-seller de mesmo nome, escrito por Celeste Ng. O livro foi considerado um dos melhores do ano de 2017. A minissérie tem algumas diferenças em relação ao livro, mas a ideia principal é a mesma. Celeste também participou de parte da produção da minissérie. Aliás, a equipe de idealização, produção e execução de Little fires Everywhere é composta por mulheres incríveis, dentre elas a Lynn Shelton que faleceu recentemente.

Little Fire Everywhere conta a história de duas mulheres, Elena (Reese Witherspoon) e Mia (Kerry Washington) que são de mundos completamente diferentes, que se conhecem e acabam convivendo e ocasionando uma relação turbulenta que gera muitas intrigas. Reese e Kerry estão sensacionais e participaram da produção executiva da minissérie.

Tudo começa quando Mia Warren chega em Shaker Heights, no estado de Ohio, EUA. Uma cidade cheia de regras. Elena Richardson mora nessa cidade, é jornalista, casada, tem quatro filhos e aparenta ter a vida dos sonhos, cheia de metas e regras, enquanto Mia é fotógrafa, mãe solo, tem uma filha e um estilo de vida mais simples e mais livre, elas vivem viajando, não criam raízes em um lugar apenas. Elena decide alugar para Mia uma casa que é de sua posse, elas tentam conviver, porém, muitas questões e alguns acontecimentos as fazem terem uma relação conflituosa e difícil. E tudo se acentua mais com a disputa da guarda da bebê May Ling pela mãe biológica chinesa e imigrante e a mãe adotiva.

A série traz discussões importantes sobre racismo, questões de classe, machismo, privilégios, sexualidade, aborto, entre outros. Destacando o assunto maternidade, que é um dos pontos principais da trama.

A construção dos personagens é feita de forma excelente, cheios de camadas e dilemas. O conflito entre as duas protagonistas vai crescendo diante dos seus olhos, com textos bem escritos e de alto nível. Elas iniciam o embate de forma comedida, o ambiente tenso vai sendo criado aos poucos e tudo vai explodindo e saindo do controle, até se tornar uma competição de “mãe do ano” ou não. Ao mesmo tempo que elas têm grande importância na narrativa, os personagens secundários também são importantes para trama, em destaque seus descendentes. A obra expõe como esse choque entre as duas acarreta consequências para a vida desses personagens.

Diferentemente, como estamos acostumados com algumas séries que se passam na década de 20… 50… 60 ou 70, Little Fires Everywhere se passa no fim dos anos 90. É bem bacana acompanhar os cenários, decoração, objetos de cena e figurino, foi um ótimo trabalho da produção de arte. Quem viveu essa época vai sentir um pouco de nostalgia, sem sombra de dúvidas.

A trilha sonora é excepcional. A música tema de abertura é bem impactante e já funciona como um prelúdio do que te espera. A trilha foi composta por Mark Isham e Isabella Summers (tecladista da banda Florence and The Machine). Além disso, a trilha também traz alguns clássicos da época, como: Uninvited de Alanis Morissette, numa versão da cantora e compositora Bellsaint.

As questões levantadas na minissérie são bem pesadas, ao mesmo tempo te faz repensar sob vários pontos de vista. Vale destacar que algumas cenas de racismo e machismo com a reprodução de algumas falas bem sutis (racismo velado), outras vezes escancarada, justamente como é na vida real, não apenas contra negros, mas também imigrantes. Algumas vezes essas cenas são sentidas até como um tapa na cara.

O elenco está incrível, assim como, as protagonistas que estão fabulosas, o elenco adolescente também está maravilhoso, eles dão um show de atuação em vários momentos. Pode pegar um lenço porque você vai se emocionar em alguns episódios.

A obra te lança vários mistérios em torno da vida das protagonistas. Algumas justificativas para certas ações são respondidas com os flashbacks, que por sinal, estão excelentes e de ótimo gosto, eles não entregam todas as respostas de uma vez, é isso que te faz ficar cada vez mais preso ao enredo e querer descobrir mais e mais. Eles vão desenvolvendo os segredos dos personagens de forma bem rebuscada.

A questão da maternidade é abordada em vários contextos, Little Fires desenvolve essa relação de mãe e filha ou filhos muito bem, trazendo para tela toda a complexidade, destacando seus problemas, desentendimentos e rancores. E de como há múltiplas formas de lidar com os filhos, ocasionando consequências e traumas.

A trama é cheia de reviravoltas e acredite, é bem mais que um melodrama. Toca em assuntos que precisam ser discutidos, de forma simples e objetiva. Little Fires te faz refletir sobre se colocar no lugar do outro, sem julgamentos, sem preconceitos e sobre a importância da Sororidade.

Little Fires Everywhere é uma das ótimas apostas de 2020, uma excelente obra pertinente e inesquecível em vários aspectos, enfatizando o protagonismo feminino. A princípio, é vista pela criadora Liz Tigelaar como uma minissérie. Tem 8 episódios e uma continuação não foi confirmada.  Ela afirmou ainda que possivelmente seria provável um spin-off, visto que, o fim deixou algumas possíveis pontas soltas que renderiam uma boa continuação, mas também não tem nada confirmado. A maratona é uma ótima sugestão.