Estreou na Netflix, na última sexta-feira (04) o filme Estou Pensando em Acabar com Tudo, escrito e dirigido por Charlie Kaufman (“Anomalisa”, “Synédoque, Nova York”, roteirista de “Quero Ser John Malkovich” e “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”, etc). O filme é uma adaptação do livro de mesmo nome do escritor canadense Iain Reid. Kaufman teve a liberdade para dar a sua visão no longa.

Tudo começa quando Lucy (Jessie Buckley) embarca numa viagem com o seu namorado Jake (Jesse Plemons) para conhecer os seus pais (Toni Collette e David Thewlis), Lucy está se questionando sobre o futuro do seu relacionamento e sobre o que pensa em fazer. Chegando lá, ela observa alguns acontecimentos estranhos e é quando o filme começa a te levar numa confusa reflexão sobre a existência humana, projeções e a finitude da vida.

O filme tem toda a assinatura de Kaufman em vários detalhes, talvez quem não é familiarizado com seu estilo possa estranhar. Não é um filme fácil, os diálogos são extensos, reflexivos, com diversas referências, entre elas do Cinema e literatura e vai te pedir bastante dedicação para continuar acompanhando o desenrolar do enredo. A narrativa traz muita bagagem e os elementos utilizados são bem criativos, zona de conforto não existe aqui. Talvez seja até imaginável que quem consumiu o livro tenha mais facilidade para absorver certas coisas, porém Kaufman deu o seu toque a trama.

A obra tem um visual muito bonito, as cores são bem trabalhadas, a direção de fotografia foi feita pelo polonês Lukasz Zal (Guerra Fria e Ida). Alguns momentos é quase inevitável não lembrar de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. Também é interessante como eles usam o artifício de um filme dentro do filme e funciona muito bem, além de muitos recursos inusitados. Mas que não deixa o público cair na suspensão da descrença. O elenco está excelente, destaque para Toni Collete.

Kaufman adora detalhar em suas obras a melancolia do homem metropolitano, lidando com suas derrotas individuais, mas o enredo aqui é bem mais complexo do que você possa acreditar. O filme é quase um drama freudiano. Todos os enigmas tem um propósito. O público da Netflix que escolher embarcar nessa road trip achando que é um filme de terror vai se frustrar. É quase impossível cataloga-ló em apenas um gênero. Talvez um drama/thriller psicológico, encaixe melhor.

Estou Pensando em Acabar com Tudo não nasceu pra ser um filme comercial, porém já pode ser considerado o filme mais desgraçador de mentes de 2020. Vai te causar um misto de sentimentos e prender a tua atenção, assim como uma obra surrealista. Alguns momentos podem até ser desconcertantes, mas vai te deixar em estado de alerta para não perder nenhum detalhe na busca de dados, para criar uma teoria que te faça entender o filme. “Estou pensando” vai gerar diversas interpretações e ele foi feito para isso, um texto de análise é pouco para descrever a representação de tantos pontos abordados.

A produção é um belo desafio, cheio de referências que passeia entre John Cassavetes, a crítica de Cinema Pauline Kael e o filme Uma Mente Brilhante, entre tantos outros… A ligação entre eles? Só assistindo para saber. Inclusive as referências são citadas ao final, nos créditos. A medida que dá muita informação esconde muita coisa, traz mais questionamentos do que resoluções. Mais uma obra que veio para te confundir e te fazer refletir sobre várias questões internas.