Estreou na última quinta-feira (01) a mais nova série brasileira da Netflix, Bom dia, Verônica, baseada no livro de mesmo nome, lançado em 2016 de Andrea Killmore, pseudônimo da criminóloga Ilana Casoy e do escritor e roteirista Raphael Montes, que também são os responsáveis pela série.

A história acompanha Verônica (Tainá Muller) uma escrivã da polícia civil, que tem faro para a investigação. Ela tem um passado doloroso em relação a uma tragédia familiar, mas conseguiu seguir adiante com a sua vida. O que Verônica nem espera é que rapidamente vai acabar se envolvendo em dois casos ocasionando uma investigação alucinante que trará muitas consequências, inclusive revisitar seu passado. Ela ainda vai precisar lidar com uma rede imensurável de corrupção.

A série é cheia de gatilhos e aborda assuntos delicados, como: Suicídio, depressão, machismo, relacionamento abusivo, violência física e psicológica. O foco aqui é a violência contra a mulher em suas variadas formas.

Bom dia, Verônica Traz um serial killer para a tela e explora todo o seu desenvolvimento, demonstrando seu modus operandi e apontando seu perfil psicológico.

Além disso, trata de forma responsável e consegue apresentar toda a pressão e o clima opressor que vive uma mulher presa em uma relação abusiva, na qual a violência psicológica é a sua maior corrente. Além de contextualizar várias situações que se enquadram como violência, que muitas mulheres passam, mas que não sabem definir como abuso. O agressor manipula, fazendo a vítima se sentir culpada, tornando essa a sua principal arma de ameaça e chantagem.

O machismo e a misoginia são expostos em diversas formas e situações, seja por personagens masculinos ou por uma personagem feminina. Até em um simples diálogo do dia a dia o machismo está lá, mesmo que de forma sutil, para escancarar o quanto está impregnado numa sociedade patriarcal que culpabiliza a mulher.

A narrativa é envolvente, o roteiro consegue inovar, mesmo quando você já deduz o que vêm pela frente. A série é um soco no estômago. A trama tem muita potência e as escolhas foram positivas, conseguindo engajar o público. A série vai te prender a cada segundo, o primeiro episódio já começa de forma chocante.

A protagonista é muito bem construída, cheia de camadas e complexos ao mesmo tempo que exala uma força de vontade e senso de justiça. Ela não hesita quando o assunto é provar suas teorias, ultrapassando alguns limites e ainda bem que ela cruza essa linha em alguns momentos. Ela é a personagem no enredo responsável por toda a empatia e sororidade que falta nos demais, representando assim o sentimento do público. No seu desenvolvimento algumas questões ficam bem superficiais, porém não afeta em quase nada a sua evolução. Facilmente é possível lembrar de algumas personagens com os mesmos traços de personalidade, como Jessica Jones (Marvel) só que de forma bem mais realista e também a Emily Byrne da série Absentia. Verônica preenche todos os requisitos de uma personagem clichê de uma série investigativa, mas consegue deixar sua marca.

O elenco está incrível, Tainá Muller como Verônica está em seu melhor momento, outro que rouba a cena é Eduardo Moscovis como Tenente Brandão, ele está sensacional e faz o público ter repugnância de seu personagem com todos os seus trejeitos, o personagem é um ser asqueroso. A Camila Morgado como Janete também dá um show de interpretação, ela consegue transmitir todo o sentimento e a angústia apenas com o olhar.

O realismo do uso da tecnologia na investigação é sensacional, esqueça os aparatos mirabolantes e super ágeis que são usados em série de espionagem do cenário televisivo americano, um ótimo aspecto que consegue aproximar a obra da vivência do público.

Toda a parte técnica da série está muito bem produzida, a cinematografia está cheia de planos abertos explorando a paisagem urbana da São Paulo caótica e o uso das cores são acertados. Os momentos de tensão são impactantes.

O ritmo é frenético e fica difícil não ver os 8 episódios de uma só vez. Mesmo que uma maratona seja difícil, por algumas cenas fortes que podem chocar. Apesar dessas cenas, muita coisa fica subtendida, a série não mostra detalhes de alguns acontecimentos deixando isso para o imaginário do público. A quebra da expectativa no final da temporada é feita de forma muito bem planejada.

A série é um excelente thriller policial, cru, tenso, violento e cheio de reviravoltas. A continuação dos livros já está garantida com Boa tarde, Verônica e Boa noite, Verônica sem data de lançamento confirmada. Já a série ainda não teve uma renovação para uma segunda temporada garantida pela Netflix.