Até que ponto a afirmativa “Penso, logo existo” é realmente válida?

O intelecto sempre foi objeto de estudo dos acadêmicos no decorrer dos anos, seja na neurologia, até em estudos epistemológicos e relacionados à educação.

Charlie Gordon é um deficiente intelectual, de início, e decide participar de um experimento para se tornar mais inteligente. O livro nos traz relatos do próprio Charlie antes e depois da cirurgia. Algernon é um ratinho de laboratório que também passou pelo mesmo procedimento que Charlie irá passar. Um simples rato e um homem ”ingênuo e puro” criam uma certa relação de competitividade, não perceptível para o rato, e posteriormente eles criam uma certa empatia um com o outro,

Os relatos tem sua escrita sendo evoluída aos poucos, como Charlie cria consciência de si e do mundo ao seu redor. As lembranças e os sonhos tomam um papel fundamental na narrativa. “Como as pessoas me viam e como reagiam perante os meus erros e acertos?”.

Charlie evolui. E se frustra.

A narrativa segue e criamos uma certa identificação com o protagonista pelo simples fato de questionar a fragilidade do ego e como a autoestima se constrói com o mundo ao redor e as suas constantes validações sociais. E falando em validação, como o deficiente intelectual é visto naquele época reflete a escassez de pesquisas e conhecimentos sobre a problemática, e perpetuam a ideia de que essas pessoas não são normais.

O livro, para mim, foi um exercício de empatia e uma auto identificação. Como um processo de constantes perguntas sobre o que penso, como penso e como sou concebida ao olhar dos outros e, acima de tudo, o que é “ser inteligente”?

A experiência de subir uma montanha gigantesca, contemplar o horizonte e a imensidão do universo, descer de modo degenerativo e, no final das contas, não se lembrar de nenhum aspecto da paisagem é o melhor modo de relatar a experiência de leitura dessa obra.

1958 e mais de 60 anos depois percebemos o quanto o livro de Daniel Keyes é relevante , e justo no mundo de agora, onde o imediatismo e o intelecto parece ser cada vez mais exigido ou até banalizado. Urge a necessidade para nos atentar sobre o desenvolvimento humano, as doenças mentais e a complexidade (iluminada ou não) da mente humana.

Afinal, a vida é um eterno labirinto.

  • Flores para Algernon
  • Escrito por Daniel Keyes.
  • Tradução de Luisa Geisler
  • 288 páginas
  • Editora Aleph