Por Jaderson Henrique

Laura Biel é uma diretora de vendas bem sucedida que viaja para a Sicília de férias com o namorado e acaba sendo seqüestrada  por Massimo, um membro da máfia local, que tentará fazer de tudo para que Laura se apaixone por ele enquanto a mantém em cativeiro por 365 dias.

Parece absurdo? Pois é, essa é a premissa do novo soft porn da Netflix. Seguindo a linha “50 tons de cinza” o filme tenta reproduzir o mesmo sensacionalismo em torno do sexo sem se preocupar com um dos pilares mais importantes de um filme, o roteiro. Na verdade não sabemos se a pobreza narrativa é uma herança do material fonte, pois não lemos a obra. Sim, 365 dias é baseado numa famosa trilogia literária, ainda não traduzida para o português, da autora Blanka Lipińska. A autora que usou como inspiração para sua obra outra trilogia erótica famosa já citada anteriormente, também foi uma das roteiristas do filme, o que nos leva a crer que não existem tantas diferenças adaptativas na produção. O longa é um show de close errado.

Eu chego a ficar curioso sobre quais critérios são usados pela curadoria da Netflix, na seleção desse tipo de filme. Nada parece real, o personagem Massino, passa meio filme se dizendo um mafioso perigoso, ele é até baleado no início, mas não o vemos de fato atuar na máfia ou seus inimigos. A proposta de venda e divulgação do filme é o sexo, mas, o sexo se resume a um compilado de cenas num barco e outra num apartamento. O filme se acovarda em mostrar um nu frontal, ou seja, é um filme de sexo, sem sexo.  Repleto de lapsos temporais, chega a ficar cansativo ver situações que são faladas e não mostradas, e isso permeia o filme até a sua última cena. Logo no inicio vemos Laura sendo atacada pelos capangas de Massimo para seqüestra – lá, mas, antes de tudo acontecer há um corte a já a vemos acordando na mansão. Em outro momento Laura, para desafiar Massimo, vai tomar banho na Fontana de Trevi e mais uma vez, corta e só vemos ela voltando molhada.

O problema do elenco é ainda pior, a química entre o casal protagonista beira o incômodo. O ator italiano Michele Morrone claramente se esforça para defender o seu personagem, mas não consegue ir além do estereótipo do macho Alpha truculento, grosso que precisa ostentar sua riqueza para auto afirmar sua masculinidade. Já a atriz polonesa Anna-Maria Sieklucka cabe o papel da mulher frágil, que tenta afrontar seu algoz, mas, é a vitima que se desculpa com o cara que a seqüestrou se mostrando totalmente subserviente a ele. Os personagens podem ser considerados os mais rasos da história do cinema. Não sabemos absolutamente nada sobre ninguém. É impressionante! Sabemos que ele é um mafioso e ela uma diretora de vendas, fora isso mais nada. O filme inteiro se resume a poucas cenas de sexo e varias cenas dos dois comprando roupas e jóias. Os coadjuvantes chegam a ser vergonhosos, muitos nem sequer possuem falas. 

E para não dizer que o filme não tem absolutamente nada de bom, pode-se dizer talvez que a única parte interessante da produção seja a música tema: Feel it, que é interpretada pelo próprio Michele Morrone que também é cantor e manda super bem nos vocais, mas, sem nada de novo. Parece que por ser um soft porn é preciso seguir aquele padrão gemidão do whatsapp. Aquela música mais lenta, com uma batida marcante e voz gemida pra dar o tom da sensualidade.

O grande problema mesmo do longa  é a romanização da violência contra mulher. Aqui nós temos uma mulher que é seqüestrada, cerceada de sua liberdade, por um homem maluco que diz que dará a ela 365 em cárcere privado para que se apaixone por ele e que não fará nada nesse meio tempo que ela não queira. O argumento se torna contraditório antes mesmo de começar. Depois disso temos um profundo problema moral e ético nas atitudes dele, que sim, ele abusa dela física e psicologicamente de várias formas. Tomar seu computador e celular, dizer literalmente que ela é obrigada a ficar de calcinha na frente dele por que é ele quem está pagando por suas loungeries, algemá-la e obrigá-la a ver ele fazendo sexo com outra mulher tipo: “olha o que você está perdendo”, tocar nos seios dela e na vagina com ela amarrada sem dar permissão… é tudo errado em tantos níveis que fica difícil descrever.

Mas tudo bem, apesar desse show de atrocidades, tudo é embalado num pacote de fetiche e sensualidade. Afinal, qual mulher não gostaria de ser desejada e raptada por um homem alto, forte, másculo, com a voz grave, rico que mora numa mansão e vive a ostentar carrões, festas, jatinhos particulares, viagens, jóias. O que custa ceder a todas as vontades desse homem que vai dizer que roupas a mulher deve usar, como ela deve se comportar, aonde ela pode ou não ir. Num país onde o índice de feminicídio é de 1.314 mulheres mortas a cada 7 horas em média, esse tipo de produção pode ser um tanto quanto perigosa por mostrar a violência como um ato romântico ou justificável quando o agente violento é o provedor financeiro.

Apesar de ser uma obra com censura 18 anos, a produção continua como uma das mais assistidas do streaming e não se tem certeza de quem está do outro lado da tela recebendo essas informações. É claro que no Brasil e no mundo o corpo feminino é objetificado há muito tempo. Propagandas de cerveja, filmes, programas de TV. A mulher tem seu corpo exposto e vendido normalmente há muito tempo. O mercado da pornografia é até hoje pautado na exploração do corpo feminino. Nos filmes elas são tratadas como produtos e seus corpos são devassados. Em alguns fica nítido o desconforto da mulher que é submetida a fazer sexo anal, muitas vezes sem gostar, a transar com mais de um cara ao mesmo tempo, a ser penetrada por mais de um cara ao mesmo tempo, a sentir dor para satisfazer ao homem ou a vários homens que sempre chegam ao orgasmo, mas, nunca se preocupam se a mulher também chegou, pelo menos eu nunca vi esse filme.       

Fraco, brega, sem ritmo e problemático por romantizar a violência contra a mulher 365 dias é uma obra medíocre baseada num livro não lançado aqui ainda e deixa um gancho para a continuação de uma possível trilogia. Mas, eu ainda fico a me questionar por que esse tipo de produção ainda desperta tanto interesse nas pessoas? Será que se ao invés de um homem bonito e rico, fosse um homem feio e favelado, toda essa história ainda seria tão romântica? E se a história não nos fosse apresentada num streaming, mas, num tele jornal ainda seria um conto erótico ou seria um caso de polícia? Que 365 dias é um filme tecnicamente péssimo em todos os sentidos isso é inquestionável, porém, são os problemas morais que ele representa que deve ser tratado com cuidado, debatido e discutido para que esse tipo de produção não seja encorajada.