Por Jan Araújo

Assim como quase todos os aniversários, datas comemorativas, feriados e afins estragados, com o Halloween não seria diferente. Mesmo com um novo plano de convivência e o afrouxamento das medidas de segurança, ainda passamos por um momento delicado. Apesar de nem todos tem o privilégio de ficar em casa, muitos dos que saem não estão nem aí para as medidas de segurança. Ademais, mesmo aqueles que permanecem seguindo as medidas e tentando sair de casa o mínimo possível, ainda podem ser afetados psicologicamente por toda a treta que a pandemia trouxe ou agravou.

Assim como quase todos os aniversários, datas comemorativas, feriados e afins estragados, com o Halloween não seria diferente. Mesmo com um novo plano de convivência e o afrouxamento das medidas de segurança, ainda passamos por um momento delicado. Apesar de nem todos tem o privilégio de ficar em casa, muitos dos que saem não estão nem aí para as medidas de segurança. Ademais, mesmo aqueles que permanecem seguindo as medidas e tentando sair de casa o mínimo possível, ainda podem ser afetados psicologicamente por toda a treta que a pandemia trouxe ou agravou.

Diferente de algumas outras datas comemorativas que exigem um contato maior com as pessoas, como o Carnaval, o São João, entre outras, o halloween tem grande parte da sua essência vinda de bases que não carecem propriamente da presença física para acontecer. De toda forma, passamos a curtir todas as datas comemorativas de um jeito mais singelo, se apegando às suas simbologias no conforto de casa.

O espírito do Halloween sempre esteve ligado aos contos e histórias de terror antes de tudo. No princípio em contos, livros, jornais e até na música (sem contar outras áreas, como nas artes plásticas) para, em seguida, habitar a tv e o cinema. É dessa forma, da união de muitas coisas intangíveis, que o espírito do Halloween é construído. Claro que o fato de não ser uma comemoração tradicional no Brasil por não sermos, em geral, marcados pelo costume de nos fantasiar no Halloween (ou fantasiar os filhos para o famoso “gostosuras ou travessuras?”), facilita o processo de viver um Halloween mais imaterial e por isso, mais seguro no contexto atual.

Como as ameaças que nos amedrontam geralmente vem do exterior, é em nossas casas que muitas vezes nos sentimos mais seguros. Não obstante, nos filmes de terror, a casa também pode representar um lugar que nos mantém afastados dos males da rua (mesmo que nem tudo saia conforme o esperado). É nesse sentido que separamos dez filmes que, de alguma forma, um determinado espaço mantém seus personagens mais seguros contra aquilo que lhes atormentam do lado de fora. Assim, o “sair de casa” acaba se tornando uma péssima ideia, mesmo que necessária.

No filme Rua Cloverfield, 10 (10 Cloverfield Lane, 2016), a protagonista Michelle (Mary Elizabeth Winstead) acaba sofrendo um grave acidente de carro e acorda numa espécie de “bunker-casa” onde Howard (John Goodman), homem que informa tê-la salvado, diz que a superfície da terra sofreu ataques misteriosos que a deixaram tóxica e inabitável. Devido a isso, ele não permite que a moça saia, alegando que ela não irá sobreviver lá fora e que é mais seguro permanecer no bunker. Contudo, Michelle não consegue acreditar no que ele diz e suspeita da sua conduta, que vai se tornando cada vez mais sombria. A partir de então, a tensão entre os personagens vai aumentando, ao passo que a moça começa a elaborar formas de escapar. O filme consegue criar um suspense detalhista, bem elaborado e com um senso emergencial que deixa o espectador sempre atento. Além disso, conta com uma das melhores interpretações na filmografia de John Goodman. Disponível nas plataformas Now, Vivo Play, Oi Play, Apple TV, além do Youtube.


Um dos filmes mais recentes da Netflix chegou a unir isolamento e terror numa boa produção que, mesmo sem trazer nada essencialmente novo ao seu gênero, consegue ser bastante atrativa: #Alive (2020), de Hyung-Cho II. Esse filme sul-coreano tem um roteiro bastante simples, mas muito eficaz para o quesito do entretenimento. Somos apresentados a um jovem gamer chamado Oh Joon-Woo (Ah-In Yoo) que, ao acordar sozinho em seu apartamento, olha da janela e percebe que um apocalipse zumbi dominou as ruas. Ele tenta permanecer o máximo de tempo dentro de casa, mas quando sua comida e sua conectividade vão acabando, ele se vê obrigado a contornar a situação para sobreviver.

Voltando um pouco no tempo, temos uma das obras mais eficientes no quesito “suspense de confinamento” da história do cinema, o clássico Janela Indiscreta (Rear Window, 1954), de Alfred Hitchcock. A trama do filme se passa inteiramente dentro de um apartamento. Lá mora o fotógrafo L. B. “Jeff” Jefferies (James Stewart), que sofreu um acidente que o impossibilitou de andar temporariamente, necessitando de uma cadeira de rodas. Passando os dias isolado em casa (recebendo poucas visitas), Jeff emprega boa parte do tempo a observar o dia a dia dos vizinhos com um binóculo através das janelas do prédio em frente ao seu. Nesse prédio, durante uma noite tempestuosa, Jeff acredita ter testemunhado um assassinato e, com a ajuda de Lisa (Grace Kelly), passa a tentar juntar as peças para descobrir a verdade, antes que suas vidas estejam em perigo. Contar mais é pecado, basta confiar no profundo talento de um dos grandes mestres do suspense! Disponível no Telecine Play/Looke/Apple iTunes.

Algumas pessoas acreditam que realizar um retiro para lugares mais paradisíacos é uma boa ideia quando se está querendo evitar aglomerações e se acalmar. Porém no filme A Casa de Praia (The Beach House, 2019), do estreante Jeffrey A. Brown, essa ideia é posta à prova. Na história, o casal de jovens estudantes Emily (Liana Liberato) e Randall (Noah Le Gross) viajam para a casa de praia dos pais de Randall afim de passar um final de semana amoroso. O que eles não sabiam é que um acidente geográfico submarino liberou um gás que, aos poucos, passa a transformar tudo com o que tem contato, desde a água aos seres vivos, como uma infecção. Conforme o tempo passa, o gás aumenta sua densidade e começa a dominar o ambiente ao redor das casas, deixando seus protagonistas encurralados. Percebendo que tal gás deixa as pessoas assustadoras e perigosas, o casal segue numa jornada para tentar encontrar uma saída, mas esse caminho será sufocante até o limite. Sem negar suas referências, que vão desde A Bruma Assassina (The Fog, 1980) de John Carpenter à literatura e o horror cósmico de H.P. Lovecraft, o filme é um bom suspense psicológico e compõe um ambiente asfixiante por meio de premissas simples e bem executadas. Cabe, igualmente, um adendo ao uso de imagens de forma alucinógena para desnortear o espectador. Quanto menos você souber, melhor. A obra chamou atenção em vários festivais independentes por onde passou e vale conferir! O Filme está disponível no Streaming do Shudder.

Mas, sabendo que os perigos estão por toda parte do mundo, sempre é bom visitar filmes de terror que estejam mais além do eixo ocidental. Nesse sentido, uma boa dica é o suspense anglo-jordaniano-qatariano À Sombra do Medo (Zir-e Sayeh / Under The Shadow, 2016), dirigido pelo iraniano Babak Anvari e disponível na Netflix. Aqui, viajamos para a cidade de Teerã, no período em que ocorria a guerra do Irã, e acompanhamos a rotina de Shideh e sua pequena filha Dorsa. Após Shideh ser proibida (pelo governo) de voltar a estudar medicina, ela e a criança precisam encarar os dias sozinhas em seu apartamento após a partida do pai, médico que viajou à trabalho nos campos de guerra. Apenas Isso já daria pano pra muita manga, se não fosse a presença de um ser maligno que ronda o prédio onde moram (Djinns, seres sobrenaturais da cultura mulçumana) que passa à apavorá-las. Ademais, devido aos constantes bombardeios externos que ameaçam o prédio e a vida de seus moradores, quase todos começam a abandonar o imóvel, que passa a ficar cada vez mais soturno e desolador. Nesse contexto, mãe e filha, que permanecem isoladas aguardando o pai, passam a vivenciar o terror em vários sentidos. Assim, ao mesmo tempo em que toca nas feridas abertas da sociedade (como a guerra e o machismo), a obra cria um diálogo bem equilibrado com os mitos regionais para compor sua atmosfera.

Outro filme disponível na Netflix e que, de alguma forma, transita no tema aqui comentado, é o espanhol/argentino O Bar (El Bar, 2017) de Álex de La Iglesia. O diretor e roteirista é famoso por unir humor, horror e suspense em suas produções (além de questões sociais). Aqui ele nos traz a história de vários desconhecidos que, por acaso, estão em um bar no centro de Madri, mas logo são surpreendidos por um evento inesperado: Um cliente, ao tentar sair do bar é atingido por um tiro e morre (assim como outras pessoas que se aproximam) – o que indica a possível presença de um sniper do lado de fora, esperando para matar quem tente sair do estabelecimento. Além disso, existe a ameaça de um componente químico no ar que pode levar à morte. Sendo assim, os personagens (estereótipos bem diferentes entre si) são obrigados a se unirem para tentar descobrir o que está acontecendo e achar uma maneira de se salvarem

Uma das características mais marcantes do longa é a sua dinâmica ágil e bem humorada, que é usada totalmente a favor do suspense e do senso de urgência que é criado. Acima de tudo, esse ritmo frenético também é um reflexo do comportamento dos personagens e dos diálogos rápidos e cortantes, sempre carregados de crítica social. É uma produção no maior estilo “onde essa p***a vai parar?” – uma vez que o roteiro é abarrotado de surpresas até o seu desfecho. Pode assistir até em grupo porque a diversão é certamente garantida!


E se quiséssemos falar de cinema nacional de gênero, a procura se tornaria mais escassa, uma vez que os filmes terror brasileiros ainda não possuem a receptividade que merecem na indústria nacional. Todavia, nos últimos anos a produção de filmes de suspense e terror no Brasil tem crescido não apenas em número, mas em qualidade, basta procurar por nomes como Juliana Rojas & Marco Dutra (Trabalhar Cansa, As Boas Maneiras), Dennison Ramalho (Morto Não Fala), Gabriela Amaral Almeida (O Animal Cordial) e Rodrigo Aragão (O Cemitério das Almas Perdidas).

No suspense Isolados (2014), dirigido por Tomás Portella, o médico residente em psiquiatria Lauro (Bruno Gagliasso), decide entrar de férias junto com sua namorada, a artista plástica Renata (Regiane Alves) em uma cabana na região da serra, no Rio de Janeiro. Durante o percurso, Lauro ouve que nos arredores do lugar estão ocorrendo macabros assassinatos de mulheres. Com receio de deixar Renata nervosa, pois que ela é bastante sensível e se afeta com facilidade, o namorado logo esconde a informação. Contudo, ele não demora a notar indícios de que os assassinos podem estar à espreita, nos arredores da casa. Com medo que algo ruim possa ocorrer, ele passa a se trancar junto com a mulher dentro da residência. Porém, conforme o isolamento se intensifica, a linha que separa razão, imaginação e delírio começa a se deteriorar. Disponível na Globoplay.


Como estamos no mês do Halloween, nada melhor para dar um tom nostálgico a esse momento do que um “terror farofa” juvenil vindo dos anos oitenta: O Portão do Inferno (The Gate, 1987), do diretor húngaro Tibor Takács. Essa produção fazia parte do acervo do extinto programa “Cine Trash” (da emissora Band), que era apresentado com maestria pelo eterno Zé do Caixão (José Mojica Marins). O terror tem início quando o garoto Glen, (Stephen Dorff) acompanhado do seu amigo Terry (Louis Tripp), encontra um buraco no quintal da sua casa (resultado da retirada de uma árvore). Enquanto consulta um dos seus discos de Rock, Glen passa a acreditar que o enorme buraco é uma passagem para outro mundo. Então, oferecendo um cachorro morto como sacrifício, ele libera o que seria um portal para o inferno. A partir daí, uma legião de demônios passa a sair do buraco com o intuito de invadir a casa (e o mundo), espalhando o caos. O que Glen e seus amigos têm a fazer agora é se proteger em casa, tentando impedir a entrada dos demônios e pensando em como consertar a situação. Além do clima de terror, muitos dos efeitos práticos e stop motions usados causaram pesadelos em muita gente na época. O filme marcou uma geração (e o terror dos anos oitenta), ganhando até continuação, mas bem inferior ao original (que pode ser visto na íntegra no Youtube, com a clássica dublagem).

Porém, como falar em isolamento social e terror sem citar nenhum filme inspirado nos livros de um dos mestres do suspense: Stephen King? O tema é bastante recorrente nas obras do autor, estando presente em livros que inspiraram filmes como O Iluminado (The Shining, 1980), de Stanley Kubrick, Louca Obsessão (Misery, 1990), de Rob Reiner e Jogo Perigoso (Gerald’s Game, 2017), de Mike Flanagan. Porém em O Nevoeiro, conto que aparece na coletânea Tripulação de Esqueletos (Skeleton Crew, 1985), ele levou o tema ao limite, acrescentando uma série de personagens e subtextos numa trama apocalíptica.

O filme foi dirigido por Frank Darabont (que dirigiu outras obras inspiradas em King, como À Espera de Um Milagre e Um Sonho de Liberdade) e lançado em 2008, gerando uma série de elogios e trazendo uma das conclusões mais marcantes do cinema de terror. A trama se passa numa pequena cidade americana que, após uma forte tempestade, se vê vítima de um estranho nevoeiro. Um grupo de pessoas que está em um supermercado local, acabam ilhadas no estabelecimento após presenciarem a chegada de um dos moradores machucado, se refugiando no lugar e afirmando ter visto “alguma coisa no nevoeiro” que devorou outro morador. Pronto, o pânico está armado. Com personagens presos num único espaço, a história monta um mosaico de tipos diferenciados em crenças, opiniões e personalidades que serão decisivas para o andamento e a conclusão da história. O roteiro segue a premissa do livro em abordar como pessoas comuns se comportam em situações extremas de isolamento, motivadas por um perigo eminente (sobretudo quando não existem mais leis ou força armada que as impeça ou punam por seus atos). Apesar de ter muitos personagens, o fio condutor é o de David Drayton (Thomas Jane) que busca, no meio de toda a confusão, proteger seu filho de 8 anos, Billy (Nathan Gamble), e é auxiliado por Laurie Holden (Amanda Dumfries). Ambos não demoram a entrar em conflito com a Sra. Carmody (Marcia Gay Harden), uma fanática religiosa que acredita que o evento se trata do apocalipse bíblico e passa a convencer os demais, rachando os presentes em dois grupos. Conforme os ataques das criaturas ao estabelecimento ficam mais violentos, a tensão entre os personagens vai chegando ao limite. Filme disponível na Prime Video e Youtube.

Mas finalizando, se você ainda não viu o sucesso Caixa de Pássaros (Bird Box, 2018), da Netflix, dirigido por Susane Bier e inspirado pelo livro homônimo de Josh Malerman (2014), é bom dar uma conferida. Ele figura como um dos suspenses que mais se destacaram recentemente no catálogo da plataforma, gerando (na época do lançamento) um buzz positivo e inúmeros memes nas redes sociais.

A obra se passa em um contexto pós apocalíptico, onde criaturas jamais descritas (e nem vistas pelo espectador) causaram ondas de mortes e suicídios em massa. Tais criaturas passaram a povoar as ruas e demais espaços abertos, bastando apenas as pessoas olharem para elas para que então acabem contaminadas, entrando numa espécie de transe e tirando a própria vida. Nesse “transe” as vítimas são confrontadas com seus maiores medos, arrependimentos e traumas, o que culmina num suicídio. Por conta disso, os humanos passaram a se isolar em suas casas, saindo apenas em ocasiões necessárias (como na busca por comida ou medicamentos) e utilizando-se de uma venda nos olhos – afim de evitar olhar para as criaturas. O roteiro de Caixa de Pássaros (assim como no livro), une três linhas narrativas para contar a angustiante jornada de Malorie (Sandra Bullock), que se encontra num pequeno barco à remo acompanhada de duas crianças, todos vendados, viajando rio à baixo com o objetivo de chegar numa suposta base de segurança. As outras duas linhas narrativas se ocupam de contar os acontecimentos que antecederam o apocalipse e a retratar a convivência entre Malorie e os demais personagens da história, confinados numa casa após os primeiros acontecimentos.

Importante é notar o quanto as obras de terror, mesmo em contextos irreais acabam se tornando espelhos para os sentimentos que passamos diariamente ou traçam o perfil da humanidade quando vista em situações-limite. Talvez, com as reflexões causadas a partir de algumas obras, possamos reavaliar nossas posturas e apurar mais criticamente (ou levemente) o universo ao redor. Muitos filmes ficaram de fora, mas foram priorizados alguns títulos ainda pouco conhecidos, mas nem por isso menos interessantes! Boa diversão! 13/10/2020